sexta-feira, março 13, 2009
sábado, fevereiro 28, 2009
GUARACY RODRIGUES
Quando conheci Helena Ignês (no FAM em que o Signo do Caos foi exibido), ela me fez uma pergunta direta: "Tu conhece o Guará?". Desconversei e falei dos dois ou três filmes que tinha visto com ele. "Ele é um ator fantástico!", ela me disse. O tempo passou, o Guará morreu . Chafurdando meus livros, encontrei esta entrevista que o Luiz Nazário fez com ele em 1980. Decidi postá-la no blog da Vinil. Obrigado Breno pela paciência em transcrevê-la.

A REPRESENTAÇÃO SEGUNDO GUARÁ
Luiz Nazário – Em A NOITE, Antonioni fez uma experiência com Jeanne Moreau: terminadas as suas cenas, continuava a rodar o filme, registrando os momentos em que a atriz, deixando de ser personagem, não era ainda a pessoa. Como um ator vive estes momentos? Que relação há entre a pessoa, a personagem e este ser intermediário?
Guará – Baseado na minha experiência, não existe este ser intermediário. O que existe quando se termina um plano é a crítica do que se fez. Uma crítica quase técnica. O ser intermediário não passa de uma sofisticação de intelectuais europeus. Esta frase não tem nada de pejorativo, pois amo a sofisticação, a Europa em geral e a cultura italiana e francesa em particular. Agora, a relação entre a pessoa (ator/atriz) e a personagem é outro papo. Um papo nada sutil. É quase violento. A mim a personagem me possui inteiramente, com a força que o demônio possui Rosário, no filme que escrevi para o Neville D’Almeida, Piranhas do asfalto.
L.N. – Quando a personagem o possui, como um demônio, é para que você se esqueça do seu corpo? Representar é uma forma de não assumir o corpo através de sua instrumentalização?
G. – Meu corpo nunca está em jogo, a não ser como manifestação sensual da personagem. Ao mesmo tempo, na imagem, o corpo é a única coisa que domino, isto é, que não me causa surpresa quando o vejo filmado, principalmente se ele é decomposto, quer dizer: close-up das mãos, da sola dos pés, dos órgãos sexuais, dos olhos, dos lábios fechados entre os quais surge a língua úmida, etc. Enfim, o meu corpo está quase sempre assumido, não penso mais nele, mas não o esqueço: ele já não me pertence, pertence à personagem. Fui chamado pelo meu amigo Gilberto Loureiro para fazer um corcunda no seu próximo filme. Aí, sim, meu corpo vai ser literalmente instrumentalizado – é uma caracterização. Estou pensando em algo assim como Charles Laughton em O corcunda de Notre-Dame. O corpo se transforma numa obsessão... mas não se pode perder o humor, como Charles, naquele plano memorável dizendo: “I’m not a man, I’m not a beast”.
L.N. – Qual a sua formação de ator?
G. – Minha formação de ator é a forma-ação. A forma: o diretor, o diretor de fotografia, o figurinista, o cenógrafo, o script, a equipe enfim. À palavra “ação” me transformo em ator. À palavra “corta” volto a ser Guará (personagem/pessoa/ator).
L.N. – Quais seus atores preferidos?
G. – Richard Dreyfus, Zbigniew Cybulski, Gerard Phillipe e todos aqueles monstros sagrados do velho cinema americano: Bette Davis, Bogart, etc. E também qualquer ator dirigido por Hitchcock, até mesmo Doris Day em O homem que sabia demais. E Edgar Buchanans, o juiz de Guns in the afternoon, e também Warren Oates. De qualquer maneira, atualmente estou parado na de Richard Dreyfus.
L.N. – Quando veio em você a noção de representar?
G. – Creio que com a primeira mentira. Quando se mente preciso elaborar, iludir, ser uma outra pessoa sem renunciar ao que você é. Depois, socialmente, a grande mentira, você tem que representar sempre.
L.N. – A representação nasce na família – no teatro do pai e da mãe – ou num desejo constante de ser outro?
G. – O teatro do pai e da mão, como casa de espetáculo, tendo eles como espectadores, é realmente muito interessante e incentivador para o jovem ator (o filho), mas sendo eles o espetáculo em si é mais uma novela de Janete Clair do que teatro. Por outro lado, os pais, como diretores, são muito ditatoriais. O desejo constante de ser outro... isto não existe. Eu não desejo ser outro quando represento, eu quero ser eu mesmo enquanto outra pessoa. Quer dizer, eu quero me colocar no interior de outro ser (personagem) e o transformar para o bem ou para o mal.
L.N. – Fale das suas decepções, no cinema, de ver a sua imagem apreendida de uma forma diversa daquela que havia imaginado, da diferença que existe entre o sonho da representação e a sua realidade, da montagem enfim, que destrói... o quê?
G. – O cinema nunca me decepcionou como criação. Existe a decepção quanto às dimensões. Você sabe, o cinema tem a limitação das duas dimensões. Por outro lado, você idealiza, digamos, um plano que fez e, quando o vê, depois de um tempo, o tempo da revelação, revelação do negativo e revelação no sentido amplo, você já amadureceu mais um pouco e pensa: “Isso poderia ser feito assim... de uma maneira mais perfeita”, ou “está tudo errado, não é nada disso”. Não se pode retocar, como na pintura, ou jogar fora ou rasgar, como se faz com uma fotografia. A perfeita representação ou a representação perfeita só existe em toda a sua sutileza na vida real, a cronologia é a montadora ideal. A montagem no cinema é arbitrária. Destrói a ordem interna do ator.
1980
segunda-feira, fevereiro 02, 2009
E começa fevereiro…
Fernando Leão, o Produtor Local, pensa se aceita o cachê.
Até agora temos o apoio do jornal O Momento, que nos cederá uma kombi para o transporte de parte da equipe, e de alguns conterrâneos que irão nos emprestar os carros de cena: um fusca e uma variant. Rodaremos uma sequência no Motel Villages, que abriu as portas para a equipe com toda a boa vontade. Outro local que fomos muito bem recebidos foi no Aeroporto Federal de Lages, onde Cacos-de-Vidro chega num avião 60’s, pilotado pelo gentil senhor Ibanor.
Marx Vamerlatti, o Diretor de Fotografia, comtempla o céu de Lages
Loli Menezes, a Diretora de Arte, em dose dupla no Villages
O Momento, nosso apoiador, fez uma matéria de cinema!
A principal locação, porém, fica nas proximidades do chalé da família Vedana. Lá rodaremos a cena final do curta, uma perseguição desprovida de qualquer compromisso com a realidade. O local possui estradas com curvas sinuosas margeadas pelo perigoso rio Caveiras. Daí o nome: Salto Caveiras. Eu não poderia deixá-lo de fora da história!
Sebastião, o Diretor de Produção, além dos outdoors!
E como não podia deixar de ser, em Lages aconteceram duas coisas curiosas: a primeira é que a cachoeira que eu havia visto na minha primeira visita, simplesmente desapareceu. Cheguei com toda a equipe e me deparei com uma rocha imensa sorvendo somente um filete d’água. Isso me fez refletir a frase do Humberto Mauro de que Cinema é Cachoeira. A queda estava lá, mas já não era mais a mesma. Assim como não o é a cada segundo que passa. Espero encontrá-la transbordante quando for filmá-la em março.
E espero que o sol nos banhe de luz.
Antes de voltarmos para casa, estávamos quase desistindo de encontrar um ator importante que irá fazer uma participação especial no filme. Antes de sair de Floripa, eu havia telefonado para Curitiba, onde ele está morando, para combinarmos um encontro em Lages. Mas ficamos de nos comunicar quando chegássemos. Ligamos direto para o celular do homem e nada. Sempre desligado. De repente, enquanto rodávamos pelo centro da cidade em direção ao posto de gasolina, Ele, o trovador-solitário, cowboy do Planalto Serrano, João Amorim, atravessa a rua diante do carro. Comoção geral. Tiramos alguns retratos para a posteridade e fechamos negócio ali mesmo, na frente do banco. Transeuntes o paravam na rua para cumprimentá-lo amigavelmente. E ele já ia fazendo a propaganda de seu próximo longa: Os Pistoleiros.
João Amorim e Marco Martins
Retornamos para Florianópolis bastante satisfeitos. Passamos a semana encaminhando ofícios, fechando elenco, finalizando roteiro e planificação e fazendo provas de figurino. As duas locações que estavam pendentes também já estão fechadas: um terraço no centro da cidade e um bar/boate. E para já dar a letra: faremos a festa de encerramento no Mix Café, no últimos dia de filmagem, dia 14 de março. Na parte da tarde filmaremos cenas com figuração convidada/disponível. De noite, quando a festa já estiver bombando, rodaremos alguns planos mais abertos. Desde já faço o convite para todos que estiverem interessados em participar. As atrações da noite ainda não estão fechadas.
Nesta próxima semana terei que me dedicar quase que exclusivamente para os ensaios com o elenco. Domingo fizemos uma sessão de Bonnie & Clyde no Blues Velvet Bar, o que já vai dar o que falar no primeiro encontro. Muitos tiros, bons diálogos, o amor e velhas piadas. A cena do assalto ao banco falido (o filme se passa durante o período da Depressão) é de tirar o chapéu. Clyde Barrow faz o velhinho do caixa ir até o carro repetir para Bonnie Parker, sua mulher, o que acabara de ouvir, que “o banco não tinha dinheiro”. Ela cai na gargalhada.
E antes que eu me esqueça: o Cine Marrocos, o último cinema de rua de Lages, vai fechar. Previsível e lastimável. Vou fazer uma cena lá . Afinal de contas, no “Veludo”, três lugares não existem mais: o Underground Rock Bar, O Brechó da Denise Richards e o terraço do Cecomtur (que ainda existe, mas é outro, como uma cachoeira).
É isso aí, uma contradição: o cinema é permanente e é provisório.
E o barco não pára.
Uma futura igreja? Um bingo? Um estacionamento?sexta-feira, janeiro 23, 2009
BEIJOS DE ARAME-FARPADO
com a palavra, Marco Martins, o diretor:
Antes de decidir realizar o “Veludo e Cacos-de-Vidro” como meu projeto de conclusão de curso em Cinema, eu já vinha tentando viabilizar o filme por fora. Tentei editais, viajei para uma oficina de roteiro no Rio de Janeiro (o que me fez pensar muito sobre algumas questões), perambulei por aí com o projeto debaixo do braço, “sovaqueando o roteiro”, como dizia o Ozualdo Candeias, mestre marginal que me disse isso pessoalmente num festival em Porto Alegre, o FLÔ. Como não descolei os recursos necessários, vi a chance de filmá-lo na Universidade, com o apoio da instituição e dos amigos.
O filme obteve uma ótima repercussão, viajou para diversos Festivais, dentro e fora do Brasil. Graças a ele fiz contato com muita gente do meio cinematográfico e obtive uma resposta muito positiva por parte do público. “Veludo…” ganhou alguns prêmios e causou polêmica. Era de se esperar: o filme faz referências ao período da cinematografia brasileira dos anos 70, pré-pornochanchada, em que os cineastas ousavam além dos limites. Era o Cinema Marginal, o Udigrudi. Meu curta revisita algumas sequências, se apropria da linguagem e da estética dos filmes realizados neste período. Vez ou outra, pretenciosamente, me aproximo de Sganzerla, de Reichenbach, do próprio Candeias. Está tudo ali, diluído, o que entendi e o que não entendi dos filmes destes mestres do “gênero”. Certas sequências são “chupações” descaradas, e isto faz parte da proposta.
No ano que o curta estava percorrendo os Festivais, fui convidado a exibí-lo na TV Cultura, no programa da Ivana Bentes. Pagaram minha passagem para o Rio de Janeiro e lá fui eu, de bermuda e chinelo, dar uma entrevista na TV. No programa estavam presentes eu e o Marcelo Lafitte, com o Bigode de mediador da conversa. Lembro que o Bigode esculhambou a nova cenografia do programa, dizendo que aquilo mais parecia uma zona do que um cenário de um programa de cinema. Ivana se desculpou sorrindo, e sentamos todos nas poltronas cor-de-rosa. A entrevista seguiu bem, o Bigode me chamou de Godard do sul do Brasil, o Laffite falou um pouco do curta dele, e em poucos minutos tudo estava terminado. Voltei para Floripa esperando o dia de ver o filme no ar. Alguns dias depois, recebo a notícia de que o programa NÃO seria exibido. Problemas na fita, que amassou durante o processo de edição. Estranho, muito estranho. O Lafitte levantou a bandeira e o Bigode foi atrás verificar se a história era verdadeira. E não era. Tratava-se de CENSURA por parte da direção do programa. Um prato cheio para a POLÊMICA.
Desde o início pensei em fazer uma trilogia. O primeiro filme tem suas lentes focadas quase que exclusivamente nos conflitos do amor. É a paixão entre um homem e uma mulher perdidos no tempo e no espaço, embriagados de luxúria e desejo. Lembro da primeira conversa que tive com o Renato Turnes, ator generoso e louco, apaixonado pelo que faz e com cinema nas veias, em que eu dizia que Veludo era antes de tudo um cafajeste. Eu queria fazer um filme pesado, eu estava precisando gritar, botar do avesso algumas coisas que havia aprendido na universidade e no decorrer da vida. Quando o Renato topou o papel, as coisas começaram a mudar. Através do humor, ele trouxe a leveza necessária para equilibrar toda a minha revolta e meu ceticismo juvenil.

Julie Cristie eu conheci por indicação de uma amiga que faz uma participação no filme, a Mhirley Lopes, com quem eu havia trabalhado no meu curta anterior, o “Milk Me”. A futura estrela do meu curta surgiu na minha frente com roupas de ginástica, um óculos de aro grosso e com os cabelos amarrados num rabo-de-cavalo. Eu definitivamente tive dificuldade de visualizar a Cacos-de-Vidro que eu tinha em mente naquele momento. Loli, a diretora de arte do filme, que estava ao meu lado, me tranquilizou: “Fica frio, ela não vai entrar em cena assim…”
O filme passou a existir quando botei uma música do Jimi Hendrix para os dois dançarem, no primeiro ensaio. Daí para frente as coisas começaram a ferver. E salve Roberto Carlos!
AS FILMAGENS FORAM MUITO DIVERTIDAS!
Desde o início, lá atrás, quando eu fechei com toda a equipe de trabalharem de graça, fiz uma promessa comigo mesmo: de trabalhar com todos no próximo filme, todos ganhando cachê e com orçamento legal para a produção. Confesso que nunca imaginei que fosse tão difícil e que fosse levar tanto tempo!
Nesse meio tempo eu formei a Vinil Filmes e passei a trabalhar em outros projetos. E o Beijos sempre como um sonho próximo. E agora chegou o momento de filmá-lo! Cinco anos depois, Veludo e Cacos estão de volta!!
Alguns amigos daquela época não estarão nesta próxima jornada: Daniel Caldeira, o diretor de produção do Veludo, mudou-se para São Paulo e é um profissional competente e bem-sucedido no ramo publicitário. Trabalha direto com cinema, com gente grande. Ariadne Catanzaro, assistente de direção, também deixou Floripa e casou-se com um rapaz muito gentil. É professora numa Universidade bacana. Fui dar uma palestra sobre videoclipe lá uma vez. Outros eu perdi o contato e não sei mais por onde perambulam. Ainda assim, consegui formar quase a mesma equipe.
Hoje estou casado com a diretora de arte, o Renato eu vejo todos os dias e fiz novos amigos. Estamos todos mais maduros e experientes, prontos para novos erros. O filme será rodado graças ao prêmio do edital de Vídeo da Cinemateca Catarinense/Governo do Estado-SC, e o transfer para 35mm está pago com a verba captada através da Lei Rouanet. As filmagens acontecerão em março nas cidades de Lages e Florianópolis. No elenco, Renato Turnes e Julie Cristie, Alvaro Guarnieri e Chico Caprario. Participações especiais de Clica Voigt e João Amorim. Por enquanto, apoiados pela Jaque, uma entusiasta do nosso cinema e que tem um restaurante com uma comida deliciosa.
Em breve mais notícias sobre o “BEIJOS DE ARAME-FARPADO”.
terça-feira, novembro 25, 2008
Para 2009...
E tem ainda Ângelo O Coveiro, de Renato Turnes, com lançamento ainda no primeiro semestre.
Boas Vibrações!
sexta-feira, agosto 08, 2008
terça-feira, junho 10, 2008
sábado, abril 26, 2008
Terça - dia 29 - 22h - Blues Velvet
A Vinil Filmes exibe nesta terça-feira, dia 29, em sessão aberta ao público, A Mão do Macaco.
O lançamento do curta será no Blues Velvet, seguido pela exibição do Making Of da produção e da já tradicional Zoológika, com Zuleika Zimbábue.
Zoológika especial no Blues Velvet
Zoológika – humor, cultura e informação sem cerca de proteção! Show de humor solo de Zuleika, que completa 1 ano em maio de apresentações semanais, todas as terças no Blues Velvet, no centro de Florianópolis.
Zuleika cria "versões subversivas para o entretenimento de massa", quadros inéditos em que parodia a televisão com muito humor e crítica. Tudo diluído entre os seus sets musicais especiais, garantindo descontração inteligente na noite de Florianópolis.
//Exibição.do.filme
22:00h.pontualmente
//Super.Set
1# gothic city! [gente que veste preto, pinta o olho e não é emo]
2# it's alive, alive! [música elétrica]
3# Hits cocks! [só sucesso]
//Seleção.de.clipes.fantásticos
//Zuleika.Game.horrores!
//O.dom.do.carão!
A famosa dança dos peitos de Elvira, A rainha das trevas!
//Panelão.da.Zuleika!
O fogo do inferno!
//Urna.mortuária!
Blues.Velvet [pedro.ivo.147. Centro]
Terça.29.04.
21h.
$7
A Mão do Macaco - Entrevista com Jefferson Bittencourt

Como foi pensada a adaptação do conto A Mão do Macaco para a linguagem do vídeo?
O conto original de William Wymark Jacobs se passa no final do século XIX. Trata-se de uma família: pai, mãe e filho, que recebem a visita de um amigo arqueólogo que traz um amuleto descoberto em uma de suas pesquisas. O ambiente é tratado no conto com muitos detalhes e cuidados, como a noite na qual o visitante chega, quando pai e filho estão jogando xadrez à luz de velas. Esse aspecto lúgubre das casas, das noites com silêncio, é próprio do universo fantástico. Para a adaptação tivemos que partir de um princípio que pudesse ser análogo a esse clima sombrio. Num mundo cheio de luzes e barulho (como o nosso atualmente) optamos então por uma linguagem mais dinâmica: escolher a própria câmera como aspecto marcante na fronteira entre a coincidência e o puramente fantástico. A câmera delimita o clima denso que vai tomando conta do filme. Assim, este filme não poderia ser feito em outra bitola que não fosse o vídeo: é de uma câmera caseira que nasce o ambiente e a atmosfera em que se passa a história. Assumimos todos os percalços de um registro caseiro que acabaram por conferir riqueza na textura, nos enquadramentos e na maneira de abordar o roteiro.
Você dirige teatro há alguns anos, mas essa é sua primeira experiência na direção de uma ficção audiovisual. Como o processo de A Mão do Macaco reflete sua prática no teatro? Quais os pontos estéticos e técnicos de aproximação e distanciamento entre as duas linguagens a partir dessa experiência?
Como se trata de um filme de Horror, tive que pensar basicamente no trabalho de interpretação dos atores como ponto essencial. Buscar a devida dramaticidade para aprofundar os temas abordados no filme. Meu trabalho no teatro me auxiliou a poder desenhar todas as cenas previamente. Foram muitos ensaios marcando e repassando cada olhar, cada movimento. A sensação que a platéia deveria ter é de um filme caseiro – casual – mas tudo foi extremamente construído. Inclusive a própria câmera é manuseada por um dos atores. O que tornou ainda mais complicada a maneira como filmamos e o que escolhemos para fazer parte do filme.
Uma diferença muito marcante é que, geralmente, no teatro o diretor é mais ‘solitário’ no processo de construção de uma obra. Já no cinema os inúmeros assistentes e as inúmeras funções (direção de arte, fotografia, etc...) possibilitam uma discussão muito ampla sobre qualquer aspecto do filme. Outro ponto importante é que no teatro o ator tem plenos ‘poderes’ quando está em cena. O diretor não pode intervir. Já no cinema tudo passa pelo olho do diretor ficando impresso ali seu olhar sobre os fatos.
A Mão do Macaco é um filme de horror. No teatro você já dirigiu espetáculos que experimentam essa linguagem. Quais as particularidades desse gênero que lhe atraem?
Edgar Allan Poe dizia que é no horror que podemos encontrar a beleza. Para mim tratar do universo fantástico nada mais é do que poder falar sobre a beleza e sobre todo o mistério que há nela e que não somos, nem por um segundo, capazes de compreender. Parece um paradoxo mas não é. Nas situações limites encontramos a essência das coisas que nos cercam e encontramos também aquilo que nos move para viver. É enxergando o horror que podemos purgar nossos pecados e ver que a vida é muito maior do que, muitas vezes, exageramos em definir.
Como o elenco foi escolhido? Quais as relações entre os principais atores e seus personagens?
Já a opção por Leandro Waltrick veio um pouco depois e acabou por dar sentido maior ao trio de atores. Leandro é bem mais novo que os outros dois, mas ficou à altura no conjunto de atuação. Acabou por dar a idade certa para os irmãos (foi referência, pois ele realmente tem a idade do personagem do roteiro) necessitando apenas colocar Gláucia com características visuais semelhantes às dele.
Interessava-me mostrar um casal de irmãos jovens, adolescentes, para que a tensão que via crescendo no filme pudesse ser alimentada pela energia plena da idade. Os ensaios foram, cada vez mais, revelando as relações dos atores com os personagens e, cada um ao seu modo, foi buscando espaço dentro das propostas do roteiro. Várias falas foram alteradas à medida que os atores se apropriavam e criavam novas características para os personagens.
Você resolveu ensaiar bastante com os atores e essa não é uma prática comum no cinema. Qual sua intenção com os ensaios?
Era demarcar exatamente cada ponto do enquadramento e da movimentação para se ter a devida consistência no lado oposto: parecer que nada foi ensaiado. Como o filme todo é registrado a partir de uma câmera caseira, a idéia seria a de que tudo no filme é resultado do acaso ou da intencionalidade primeira, isto é, o personagem pega a câmera e filma aquilo que quer filmar e nós, espectadores, vemos somente isso. Os ensaios também serviram como uma espécie de ‘storyboard’ ao vivo. Eu tinha, antes mesmo de filmar, todo o filme já gravado, pois registramos (e ensaiamos) todas as cenas numa câmera high 8 mm. Montei todo este rascunho em casa e pude já ver o resultado dos planos em seqüência. Outro ponto foi que os ensaios , no próprio espaço da casa onde rodaríamos o filme, foi essencial para permitir que os atores ficassem mais à vontade durante as filmagens, sem deixar que os problemas de ajuste técnico (que levam muito tempo nos dias em que se grava o filme) pudessem atrapalhar na concentração e consequentemente no trabalho de interpretação.
Que outros artistas e obras lhe inspiraram durante o processo?
Com certeza uma obra que revela a riqueza deste processo de ensaios foi Festim Diabólico de Alfred Hitchcock. Neste filme o diretor acabou, por uma necessidade técnica (ele só tinha 8 rolos de filme com 10 minutos cada), demarcando cada passo do ator, cada ação, cada detalhe dentro do apartamento onde a história se desenrola. É uma aula de síntese e construção cinematográfica. Já dentro do ponto de vista do cinema de horror outros artistas também serviram de base : Stanley Kubrick (O Iluminado), Alejandro Amenabar (Os Outros), e claro, A Bruxa de Blair que foi exemplar no tratamento dado à potência assustadora que um material filmado, ‘supostamente’ caseiro, pode criar.
Seu trabalho é caracterizado pela musicalidade e pela profunda ligação entre música, ação e drama. Como é a música em A Mão do Macaco, e como ela se relaciona com a história que está sendo contada?
A música é o elemento que denuncia a minha presença dentro do filme. A Mão do Macaco não se trata de um filme sobre um vídeo caseiro, mas sim, de uma ‘construção sobre’ um vídeo caseiro. Não se trata de um documento audiovisual encontrado em algum lugar como prova de algo que aconteceu, mas sim, de uma história vista a partir de ponto de vista de uma câmera casual. Aí é que aparece a figura do diretor. Eu interfiro com a música ressaltando as passagens que me parecem mais marcantes da atmosfera de horror que o roteiro propõe. A música tem o papel, aqui, de comentar a situação vivida pelos personagens principais e denuncia, a todo o momento, o horror que está por vir.
Toda a gravação foi realizada na casa da família de Sandra Meyer no Parque São Jorge, em Florianópolis, onde toda a equipe ficou concentrada durante o processo. Por que essa opção? O espaço é importante no filme?
Foi, talvez, a decisão mais importante de todo o filme. A gentileza da família Meyer Nunes foi incalculável, pois permitiu que os atores ensaiassem previamente um mês antes e pudessem descobrir, literalmente, todos os cantos da casa. A opção de escolher um único espaço estava já no roteiro. Creio que os grandes filmes de horror sempre trataram de enclausuramento. Os lugares fechados proporcionam a agonia devida e a síntese necessária para as situações mais extremas. A casa, no filme, é um personagem vivo que revela fotografias da família, cantos escuros, e pontos frágeis dos personagens. A concentração de toda equipe (que acabou dormindo na casa durante os dias de filmagem) foi essencial para termos a devida concentração no trabalho e na atmosfera proposta pelo roteiro.
Ao assistir hoje o filme pronto, que sensações ele lhe provoca? Quais as expectativas para o lançamento e para a esperada reação do público?
segunda-feira, março 24, 2008
Apertando Silvana no Blues
Em 2007 os realizadores da Vinil Filmes viajaram até o Rio de Janeiro para registrar o encontro entre a fotógrafa, escritora e performer Silvana Leal e o artista plástico Ivens Machado, um dos principais nomes da arte contemporânea brasileira.As imagens captadas durante a visita resultaram no documentário Um E Outro, episódio da Série Encontros que a RBS exibiu durante os sábados de março no SC em Cena.
O vídeo exibido pela RBS mostra o contato e a transformação do olhar de Silvana diante da força das obras de Ivens em seu ateliê no Rio de Janeiro, mas o público catarinense não pôde assistir a uma parte desse encontro: Ivens Machado utilizou o corpo de Silvana em um experimento de vídeo-arte, manipulando-o com as ferramentas brutas e os materiais pesados que utiliza para a construção de suas obras. Esse momento não foi exibido na TV pois o artista Ivens Machado autorizou somente a exibição integral do vídeo, chamado por ele de Apertando Silvana.
É essa experiência que o público de Florianópolis pode conferir nesta quarta-feira no Blues Velvet. Antes da sessão de Apertando Silvana os quatro episódios da Série Encontros serão exibidos para o público que não pôde assisti-los no SC em Cena.
Os episódios da série Encontros
Sobre Atores e Palhaços
Viagens a Biguaçu
Breve Passagem
Um e Outro
O pocket - show
Vídeo experimento de Ivens Machado, com Silvana Leal
Marco Britto toca rocks + folks
Pedro Ivo, 147 – Centro – Florianópolis
A partir das 20:00 h
Entrada: R$ 7,00

























