
Este texto do Caio foi o ponto de partida para o novo projeto da Vinil. Em breve mais notícias!
PEQUENAS E GRANDES ESPERANÇAS
Caio Fernando Abreu
Crônica publicada no jornal
Zero Hora,
de Porto Alegre, no dia 4 de abril de 1984.

Acontece que naquele período - 5 anos atrás - eu, o Marco, a Loli, a Gláucia, o Jefferson, o Dog e o Lucão resolvemos criar a Vinil Filmes. E decidimos fazer um piloto do que seria um programa muito doido para TV, que chamamos de Videophone. Eu fiquei de criar um quadro. Acontece também que eu andava apaixonado por Buster Keaton e Jerry Lewis. Andava estudando os cômicos antigos e muito interessado na comédia física no cinema. E aí juntou isso com aquilo e eu escrevi Ângelo, O Coveiro: uma proposta de série com micro-episódios mudos que contava o dia-a-dia de um coveiro expressionista do Cemitério do Itacorubi.
Pedimos pro Rafael Schlichting fotografar pra gente, o Marco dirigiu, a Loli inventou uma roupa, trouxe uma peruca. Quando a gente estava pintando os meus olhos, o Ângelo nasceu. Ele tinha mandíbula prognata. O tal programa muito louco que ia revolucionar a linguagem televisiva catarinense não se criou, mas a Vinil sim. Depois disso muita coisa aconteceu, muitos filmes e projetos. Colocamos o filminho do Ângelo no Youtube e fez sucesso. Depois enviei para uns festivais e todo mundo gostava dele.
Eu continuei trabalhando sobre a idéia, rabiscando sketches e pensando em formatos em que o personagem pudesse se desenvolver. Até que abriram as inscrições pro Edital da Cinemateca, isso em 2007. Eu decidi juntar os rabiscos e inventar um curta. O projeto tirou primeiro lugar no concurso, a Vinil Filmes produziu, e agora vamos mostrar pra todo mundo mais um filho nosso. Filho meio estranho, com um jeitinho esquisito e diferente, mas muito querido e amado.
Nessa hora eu fico emocionado, porque fazer filmes é essa coisa doida de trabalho coletivo, e eu penso em todo mundo que participou do processo e me ajudou. Meus companheiros da Vinil são tudo pra mim. O Marco é praticamente um co-autor, estava comigo todo o tempo, decupamos e discutimos cada plano, e no set ele comandou a equipe pra que eu pudesse atuar tranquilo. Ele acreditou tanto, tanto. A Loli entendeu o personagem e concebeu um universo plástico pra ele, junto com sua equipe de artistas habilidosos. O Dog se dedicou entre outras coisas ao P&B surpreendente e aos efeitos lindos da imagem. O Jeff trouxe músicas incríveis. A Gláu chefiou as contas e ainda brilhou no set como a amada imortal do Ângelo, sempre doce e impecável.
E por falar nisso tem os outros atores do elenco, uma turma escolhida a dedo por dominar o dom do carão e que pra mim, claro, é a parte mais divertida do trampo: o Paulo, o Malcon, a Cristina, a Milena... É babar muito ovo dizer que todos estão ótimos? Ah! Foda-se, eu os acho maravilhosos mesmo. Tem ainda claro o Marx e sua equipe. Tudo que ele olha vira ouro, e eu tenho sorte quando a câmera dele olha pra mim. Não dá pra falar de todo mundo, porque um filme, mesmo pequeno, reúne muitos colaboradores, mas eu só tenho a agradecer.
Bom, agora eu moro no Centro, e não passo mais todo dia pelo Cemitério do Itacorubi. Acho que cresci, vejo cada dia as coisas de um jeito novo. Continuo insatisfeito, mas mais tranquilo com isso. Quero dizer que estou feliz e ansioso pra ver como as pessoas vão olhar pro Ângelo depois de tudo isso, espero que elas também sejam conquistadas pela sua doçura.
Renato Turnes
fotos do Prim


Nessa aventura ele conta com a ajuda de seus amigos cineastas. Eles dão dicas e contam histórias que fazem Chico voltar no tempo e entender o que é fazer cinema.
Chico encontra o cineasta João Amorim
Histórias de Cinema mistura a linguagem do documentário e da ficção. Uma série informativa, emocionante e divertida que mostra uma visão diferente sobre a aventura de fazer cinema em Santa Catarina.
vinilfilmes@gmail.com













Fernando Leão, o Produtor Local, pensa se aceita o cachê.
Até agora temos o apoio do jornal O Momento, que nos cederá uma kombi para o transporte de parte da equipe, e de alguns conterrâneos que irão nos emprestar os carros de cena: um fusca e uma variant. Rodaremos uma sequência no Motel Villages, que abriu as portas para a equipe com toda a boa vontade. Outro local que fomos muito bem recebidos foi no Aeroporto Federal de Lages, onde Cacos-de-Vidro chega num avião 60’s, pilotado pelo gentil senhor Ibanor.
Marx Vamerlatti, o Diretor de Fotografia, comtempla o céu de Lages
Loli Menezes, a Diretora de Arte, em dose dupla no Villages
O Momento, nosso apoiador, fez uma matéria de cinema!
A principal locação, porém, fica nas proximidades do chalé da família Vedana. Lá rodaremos a cena final do curta, uma perseguição desprovida de qualquer compromisso com a realidade. O local possui estradas com curvas sinuosas margeadas pelo perigoso rio Caveiras. Daí o nome: Salto Caveiras. Eu não poderia deixá-lo de fora da história!
Sebastião, o Diretor de Produção, além dos outdoors!
João Amorim e Marco Martins
Retornamos para Florianópolis bastante satisfeitos. Passamos a semana encaminhando ofícios, fechando elenco, finalizando roteiro e planificação e fazendo provas de figurino. As duas locações que estavam pendentes também já estão fechadas: um terraço no centro da cidade e um bar/boate. E para já dar a letra: faremos a festa de encerramento no Mix Café, no últimos dia de filmagem, dia 14 de março. Na parte da tarde filmaremos cenas com figuração convidada/disponível. De noite, quando a festa já estiver bombando, rodaremos alguns planos mais abertos. Desde já faço o convite para todos que estiverem interessados em participar. As atrações da noite ainda não estão fechadas.
Nesta próxima semana terei que me dedicar quase que exclusivamente para os ensaios com o elenco. Domingo fizemos uma sessão de Bonnie & Clyde no Blues Velvet Bar, o que já vai dar o que falar no primeiro encontro. Muitos tiros, bons diálogos, o amor e velhas piadas. A cena do assalto ao banco falido (o filme se passa durante o período da Depressão) é de tirar o chapéu. Clyde Barrow faz o velhinho do caixa ir até o carro repetir para Bonnie Parker, sua mulher, o que acabara de ouvir, que “o banco não tinha dinheiro”. Ela cai na gargalhada.
E antes que eu me esqueça: o Cine Marrocos, o último cinema de rua de Lages, vai fechar. Previsível e lastimável. Vou fazer uma cena lá . Afinal de contas, no “Veludo”, três lugares não existem mais: o Underground Rock Bar, O Brechó da Denise Richards e o terraço do Cecomtur (que ainda existe, mas é outro, como uma cachoeira).
É isso aí, uma contradição: o cinema é permanente e é provisório.
E o barco não pára.
Uma futura igreja? Um bingo? Um estacionamento?com a palavra, Marco Martins, o diretor:
Antes de decidir realizar o “Veludo e Cacos-de-Vidro” como meu projeto de conclusão de curso em Cinema, eu já vinha tentando viabilizar o filme por fora. Tentei editais, viajei para uma oficina de roteiro no Rio de Janeiro (o que me fez pensar muito sobre algumas questões), perambulei por aí com o projeto debaixo do braço, “sovaqueando o roteiro”, como dizia o Ozualdo Candeias, mestre marginal que me disse isso pessoalmente num festival em Porto Alegre, o FLÔ. Como não descolei os recursos necessários, vi a chance de filmá-lo na Universidade, com o apoio da instituição e dos amigos.
O filme obteve uma ótima repercussão, viajou para diversos Festivais, dentro e fora do Brasil. Graças a ele fiz contato com muita gente do meio cinematográfico e obtive uma resposta muito positiva por parte do público. “Veludo…” ganhou alguns prêmios e causou polêmica. Era de se esperar: o filme faz referências ao período da cinematografia brasileira dos anos 70, pré-pornochanchada, em que os cineastas ousavam além dos limites. Era o Cinema Marginal, o Udigrudi. Meu curta revisita algumas sequências, se apropria da linguagem e da estética dos filmes realizados neste período. Vez ou outra, pretenciosamente, me aproximo de Sganzerla, de Reichenbach, do próprio Candeias. Está tudo ali, diluído, o que entendi e o que não entendi dos filmes destes mestres do “gênero”. Certas sequências são “chupações” descaradas, e isto faz parte da proposta.
No ano que o curta estava percorrendo os Festivais, fui convidado a exibí-lo na TV Cultura, no programa da Ivana Bentes. Pagaram minha passagem para o Rio de Janeiro e lá fui eu, de bermuda e chinelo, dar uma entrevista na TV. No programa estavam presentes eu e o Marcelo Lafitte, com o Bigode de mediador da conversa. Lembro que o Bigode esculhambou a nova cenografia do programa, dizendo que aquilo mais parecia uma zona do que um cenário de um programa de cinema. Ivana se desculpou sorrindo, e sentamos todos nas poltronas cor-de-rosa. A entrevista seguiu bem, o Bigode me chamou de Godard do sul do Brasil, o Laffite falou um pouco do curta dele, e em poucos minutos tudo estava terminado. Voltei para Floripa esperando o dia de ver o filme no ar. Alguns dias depois, recebo a notícia de que o programa NÃO seria exibido. Problemas na fita, que amassou durante o processo de edição. Estranho, muito estranho. O Lafitte levantou a bandeira e o Bigode foi atrás verificar se a história era verdadeira. E não era. Tratava-se de CENSURA por parte da direção do programa. Um prato cheio para a POLÊMICA.
Desde o início pensei em fazer uma trilogia. O primeiro filme tem suas lentes focadas quase que exclusivamente nos conflitos do amor. É a paixão entre um homem e uma mulher perdidos no tempo e no espaço, embriagados de luxúria e desejo. Lembro da primeira conversa que tive com o Renato Turnes, ator generoso e louco, apaixonado pelo que faz e com cinema nas veias, em que eu dizia que Veludo era antes de tudo um cafajeste. Eu queria fazer um filme pesado, eu estava precisando gritar, botar do avesso algumas coisas que havia aprendido na universidade e no decorrer da vida. Quando o Renato topou o papel, as coisas começaram a mudar. Através do humor, ele trouxe a leveza necessária para equilibrar toda a minha revolta e meu ceticismo juvenil.

Julie Cristie eu conheci por indicação de uma amiga que faz uma participação no filme, a Mhirley Lopes, com quem eu havia trabalhado no meu curta anterior, o “Milk Me”. A futura estrela do meu curta surgiu na minha frente com roupas de ginástica, um óculos de aro grosso e com os cabelos amarrados num rabo-de-cavalo. Eu definitivamente tive dificuldade de visualizar a Cacos-de-Vidro que eu tinha em mente naquele momento. Loli, a diretora de arte do filme, que estava ao meu lado, me tranquilizou: “Fica frio, ela não vai entrar em cena assim…”
O filme passou a existir quando botei uma música do Jimi Hendrix para os dois dançarem, no primeiro ensaio. Daí para frente as coisas começaram a ferver. E salve Roberto Carlos!
AS FILMAGENS FORAM MUITO DIVERTIDAS!
Desde o início, lá atrás, quando eu fechei com toda a equipe de trabalharem de graça, fiz uma promessa comigo mesmo: de trabalhar com todos no próximo filme, todos ganhando cachê e com orçamento legal para a produção. Confesso que nunca imaginei que fosse tão difícil e que fosse levar tanto tempo!
Nesse meio tempo eu formei a Vinil Filmes e passei a trabalhar em outros projetos. E o Beijos sempre como um sonho próximo. E agora chegou o momento de filmá-lo! Cinco anos depois, Veludo e Cacos estão de volta!!
Alguns amigos daquela época não estarão nesta próxima jornada: Daniel Caldeira, o diretor de produção do Veludo, mudou-se para São Paulo e é um profissional competente e bem-sucedido no ramo publicitário. Trabalha direto com cinema, com gente grande. Ariadne Catanzaro, assistente de direção, também deixou Floripa e casou-se com um rapaz muito gentil. É professora numa Universidade bacana. Fui dar uma palestra sobre videoclipe lá uma vez. Outros eu perdi o contato e não sei mais por onde perambulam. Ainda assim, consegui formar quase a mesma equipe.
Hoje estou casado com a diretora de arte, o Renato eu vejo todos os dias e fiz novos amigos. Estamos todos mais maduros e experientes, prontos para novos erros. O filme será rodado graças ao prêmio do edital de Vídeo da Cinemateca Catarinense/Governo do Estado-SC, e o transfer para 35mm está pago com a verba captada através da Lei Rouanet. As filmagens acontecerão em março nas cidades de Lages e Florianópolis. No elenco, Renato Turnes e Julie Cristie, Alvaro Guarnieri e Chico Caprario. Participações especiais de Clica Voigt e João Amorim. Por enquanto, apoiados pela Jaque, uma entusiasta do nosso cinema e que tem um restaurante com uma comida deliciosa.
Em breve mais notícias sobre o “BEIJOS DE ARAME-FARPADO”.